Índia desponta como um aliado cada vez mais relevante ao Brasil

Com a pressão comercial de Trump sobre o Brasil, aproximação com a Índia e outros países dos BRICS ganha fôlego e pode redesenhar alianças globais.

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Narendra Modi, primeiro-ministro da Índia. (Foto: Divulgação)

O endurecimento da política tarifária dos Estados Unidos contra o Brasil abre espaço para uma reconfiguração das parcerias internacionais brasileiras. Nesse novo cenário, a Índia desponta como um aliado cada vez mais relevante tanto no campo econômico quanto geopolítico.

A aproximação com a Índia, uma das economias que mais crescem no mundo, pode não apenas compensar perdas com os EUA, mas também consolidar um novo eixo de protagonismo global dentro dos BRICS — bloco que inclui ainda China, Rússia, África do Sul e, mais recentemente, países como Egito e Emirados Árabes Unidos.

Parceria em evolução

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva recebeu, no dia 8 de julho, em Brasília, o primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi. O encontro ocorreu no Palácio da Alvorada, marcando a visita de Estado do líder do país mais populoso do planeta com 1,4 bilhão de habitantes. Modi esteve na capital federal após participar da 17ª Cúpula do BRICS, no Rio de Janeiro.

"O que é mais importante é que Brasil e Índia têm um potencial extraordinário e, por isso, reivindicamos o direito de participar no Conselho de Segurança da ONU. Não é mais possível a gente ver a ONU enfraquecida, não sendo levada em consideração. E os membros fixos [permanentes] do Conselho, que deveriam primar pela paz, são os que mais estimulam a guerra", disse Lula.

Na mesma linha, Modi comentou a aproximação dos dois países como fator de maior estabilidade no cenário internacional. "Essa parceria entre Índia e Brasil é um pilar importante de estabilidade e equilíbrio. Nós acreditamos que todas essas disputas devem ser resolvidas por meio do diálogo e da democracia. Nossas visões nessa luta com o terrorismo estão aliadas, tolerância zero", observou.

Lula pontuou que o fortalecimento de iniciativas conjuntas em áreas estratégicas é um passo importante na relação bilateral. "Dois países superlativos como a Índia e o Brasil não podem permanecer distantes. A solidez das nossas democracias, a diversidade das nossas culturas e a pujança das nossas economias nos atraem", disse.

Comércio bilateral

O presidente também defendeu a ampliação do Acordo Mercosul-Índia para reduzir barreiras comerciais e destacou o potencial do intercâmbio entre as duas economias. "Hoje, apenas 14% das exportações brasileiras para a Índia estão cobertas pelo acordo. Temos muito a avançar", disse Lula, que citou a necessidade de aprofundar contatos entre as duas nações nos setores de turismo, negócios e o intercâmbio cultural.

Sobre isso, Narendra Modi afirmou ser possível ampliar o fluxo comercial para um patamar bem superior. "Estabelecemos a meta de utilizar vários milhões de dólares nos próximos cinco anos. E estimamos chegar a US$ 20 bilhões de dólares na nossa cooperação comercial. Juntos, vamos trabalhar na expansão do acordo comercial de referência da Índia e do Mercosul", reforçou.

Acordos e negócios

Entre os atos firmados pelos dois líderes, estão um acordo de cooperação no combate ao terrorismo e ao crime organizado transnacional; um memorando de entendimento na área de energia renovável, com foco em transmissão de energia; e o memorando para compartilhamento de soluções digitais em larga escala, voltadas à transformação digital. Lula lembrou que a Índia é o mercado de bioenergia que mais cresce no mundo e tem como meta ampliar para 20% a mistura de etanol na gasolina e para 5% a proporção de biodiesel no óleo diesel.

Neste sentido, Erick Isoppo, CEO da IDB do Brasil Trading e especialista em comércio exterior, destaca que Brasil e Índia possuem uma relação diplomática próxima há quase oito décadas e, desde então, a diplomacia trouxe à mesa relações comerciais sólidas e duradouras. Isoppo pontua que de janeiro a julho deste ano, o Brasil registrou um crescimento das exportações para a Índia na ordem de 10,6% (US$ 5,93 bilhões) e de 14,3% (US$ 4,63 bilhões) nas importações, ainda assim resultando em um superávit a favor do Brasil de US$ 1,3 bilhão.

“Entre os setores que mais se beneficiam das exportações brasileiras para a Índia estão as aeronaves, bem como minério de ferro, cobre, níquel e alumínio, além de café e carnes frescas. O agronegócio brasileiro tem aproveitado o potencial consumidor indiano para fornecer produtos de alta qualidade da cadeia alimentar. No sentido inverso, a Índia tem vendido ao Brasil óleos brutos de petróleo, óleos combustíveis, medicamentos farmacêuticos, além de adubos e fertilizantes”, detalha o especialista.

Ponto de Vista Dinesh Bhatia, Embaixador da Índia no Brasil

Índia e Brasil, nossas duas democracias vibrantes, vivem um momento decisivo em sua Parceria Estratégica. A recente Visita de Estado do Primeiro-Ministro Narendra Modi ao Brasil, a convite do Presidente Lula, reafirmou o compromisso compartilhado de ambos os líderes em ampliar o comércio bilateral, aprofundar os laços de investimento e promover um crescimento baseado na inovação.

Como duas das maiores economias do mundo, nossa colaboração se estende por diversos setores emergentes, desde energia e transformação digital até agronegócio e minerais. Estou confiante de que essa parceria continuará gerando novas oportunidades para o benefício mútuo de ambos os países.